Publicado originalmente no Medium Questto|Nó
Estava participando de uma roda de discussões sobre gestão e inovação quando escutei Mário Fioretti afirmar entusiasmado que “o homem pré-histórico que pela primeira vez afiou um pedaço de madeira para caçar foi um inovador”.
Acho que poucas frases resumem tão bem duas características essenciais para entender e discutir a inovação. Primeiro, ela prova que desde os primórdios da humanidade podemos nos considerar praticantes da inovação. Segundo, que inovação tem tudo a ver com sobrevivência.
O mundo corporativo parece ter assimilado como ninguém a segunda parte dessa grande verdade. Com a inovação promovida à palavra de ordem da vez, estar entre as 10, 100 ou 1000 empresas mais criativas se tornou uma condição de sobrevivência na selva competitiva que é o mercado.
Pressionados para inovar, muitos empresários perseguem o sonho de converter suas companhias no novo Uber, Nubank ou Airbnb. Mas quando os impulsos para trazer o novo e o disruptivo se tornam uma imposição, deixam de atender à real necessidade de inovar. Por isso, antes de dar os primeiros passos nesse sentido é fundamental se perguntar: por que preciso (ao invés de “quero”) inovar?
Voltemos aos nossos antepassados evolutivos. Houve um momento crucial em que trocamos nossos quatro pontos de apoio para andar sobre duas pernas. A cada passo passamos a projetar nossos corpos para frente, sistematicamente abrindo mão de uma condição de equilíbrio em busca de novos centros de gravidade. Assim que encontramos a estabilidade, o processo recomeça com um novo passo. E assim caminhamos! A essência da inovação mora nesse mesmo paradoxo: para sobreviver, ou seja, escapar de determinados riscos, precisamos assumir outros.
Na tentativa de facilitar a transição para uma cultura de inovação, presenciamos um boom de publicações e gurus da inovação prontos para postular mandamentos e emplacar a metodologia mais eficaz e imediata. Com isso, processos realmente promissores como o design thinking passam a ser aplicados como procedimentos mecânicos, o que reduz o risco mas nos distancia de resultados realmente transformadores.
Qual o segredo então? Deixei uma pista no primeiro parágrafo. Para romper com o processo de banalização da inovação precisamos simplificar sua compreensão, reposicionando o ato de inovar diante do seu agente original: o indivíduo. Esqueça por enquanto os processos. Inovar é, antes de mais nada, um posicionamento e uma atitude diante de problemas. Como ação, não pode ser realizada por empresas, se não for feita antes por pessoas!
Está na hora de direcionar o tão falado human centered design também para a gestão, mudando o foco da empresa inovadora para o ser inovador. Essa mudança de perspectiva é fundamental porque reposiciona também todas as metodologias para o seu papel original: o de ferramentas que aproximam toda e qualquer pessoa do questionamento e da inovação.
Abrir espaço para questionamentos e dinâmicas mais flexíveis e horizontais pode parecer um risco, especialmente diante dos orçamentos, prazos e todas as métricas tradicionais dos negócios. Mas o investimento vale a pena: são as pessoas, no final das contas, que constroem as empresas.
Jaakko Tammela
Partner | head of Creative Empowerment Questto|Nó
Nicole Alfieri
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